Entrei no palco e encarei a plateia. Uma fileira de rostos imóveis e
cabeças balançando no mesmo ritmo, sorrisos ensaiados que revelavam as
presas de dragões antigos, com escamas tão brilhantes que funcionavam como
espelhos impiedosos, refletindo cada tremor do meu corpo.
Dragões não assistem, julgam. Bastava um olhar para esmagar qualquer
confiança. Na primeira fila, um menor, de escamas prateadas polidas, me
encarava. Eu era a reunião de sexta à tarde.
Algumas fileiras atrás, um vermelho ajustava os óculos com garras do
tamanho de facas de cozinha; outro, azul-metálico, marcava o tempo batendo a
cauda no chão e meu coração respondia no mesmo ritmo.
As cortinas de veludo vermelho pendiam pesadas do teto, engolindo o
som. O ar gelado batia no rosto, mas o hálito quente dos dragões empurrava o
calor de volta. Cheiro de metal e fogo recém-apagado. Meu desodorante tinha
desistido três minutos atrás.
— Vamos lá, Ayo. Hora de brilhar.
Murmurei para mim mesma.
O suor escorreu entre as escamas do meu pescoço enquanto eu erguia o
queixo e senti a barriga apertar contra as costelas: culpa do queijo derretido das
madrugadas, mas não era hora de pensar nisso.
Uma constatação atravessou a cabeça: nunca gostei de plateias.
Olhei para as garras. Segurava um clipe de papel amarelo. Apertei o
metal, minha varinha improvisada. Para os humanos, nas mãos certas, um clipe
é a toalha de um mochileiro interestelar. O herói improvisado que ninguém
espera.
Fechei os olhos e movi a varinha em gestos largos, dramáticos o
suficiente para preocupar qualquer diretor de teatro.
Então aconteceu…
O resto da história tá no livro.
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