A escuridão no elevador tinha peso físico. Ela pressionava minhas escamas como se o ar tivesse virado água. Se dragões usassem calças, as minhas estariam seriamente comprometidas.
— Legal, Ayo. Cheira a poção, assopra o caldeirão… — tentei meu mantra, mas minha boca se moveu no vácuo. Nenhum som saiu. O silêncio era absoluto e cirúrgico. Gaspar estava ao meu lado e mexia os lábios em alguma instrução técnica que eu jamais ouviria.
Primeiro dia e já virei mímica. O universo adorava me calar.
De repente, o som voltou, mas não era minha voz. Eram sussurros vindos das paredes metálicas, rastejando para dentro do meu ouvido como fofoca ruim.
— É isso que você é por baixo das escamas — sussurrou o elevador, sem qualquer humor. — Um monstro esperando para sair.
Minha risada morreu na garganta. O medo travou minha língua.
— Ayo — a voz de Gaspar cortou os sussurros, seca e real. Ele descruzou os braços e olhou para as luzes do teto. — Controle a respiração. O ambiente reagiu ao seu pânico.
O reflexo monstruoso levantou uma garra para bater no vidro, tentando sair para o mundo real. Fechei os olhos com força. O elevador deu um solavanco brutal, como se tivesse sido solto de um guindaste. A sensação de queda livre revirou meu estômago. O grito do monstro no espelho desapareceu no som de metal retorcido.
Quando o movimento parou, o silêncio voltou. As portas se abriram lentamente para um lugar onde as cores foram drenadas do mundo.
— Bem-vinda ao Sótão dos Itens Inacabados — disse Gaspar. — E cuidado onde pisa. O ambiente aqui tem temperamento.
O resto da história tá no livro.
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